Radar Pepijus
Opinião
NÃO VEJO A HORA DE CHEGAR O DIA DA ABOLIÇÃO

Em verdade, pelo que dizem por aí e pela alma boazinha da princesinha, faltam ainda apenas sessenta. Quantos laços de aço, grilhões, tentações, nas masmorras, nos porões, nas galés, nas prisões. Nas esquinas à noite, dentro de casa, nos hospitais urubus macaquinhos, os indiozinhos; nas construções, plantações, arrozais, vinhedos, nas ruas da cidade, nos becos da periferia, morros, na troca de tiros com o bandido, os ladrões. Estrito cumprimento do dever legal. Legítima defesa banal na limpeza funcional da sujeira social. No centro, palácios, condomínios. Violência viva não vista no sangue que se esvai pelos ralos invisíveis. Gritos abafados em lágrimas secas, ocultas. Sonhos desfeitos, vidas roubadas antes do tempo por nada, por ódio, por avareza, vileza fatal, por algum dinheiro, algum metal. Algemas tantas, escancaradas ou não. Muita lama e ausência de coração. As pessoas, o mundo está cada vez mais doente. Na esquina da praça duas farmácias. Parede-meia. Mais adiante, outra, dobrando a esquina, mais uma. Para todo canto. Numa delas vi doces, vi balas, biscoitos sem gosto de nada, batatinha, balões, até brinquedo tinha. Encontrei, por acaso, aquele amigo que perdera o prumo. Sem máscara, sem nada, não escondia mais a sacolinha cheia de caixas, cheia de tarjas, cheias de dor, cheias de tudo. Paliativos provisórios, permanentes e infinitos. Estou contando as horas, os dias da grande libertação. Senta, José ! Faltam só 60. Anos, séculos ? Sei não.
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